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domingo, 4 de maio de 2014

These are a few of my favourite things

Desculpem escrever um título em inglês (embora eu saiba que o Frederico e o Daniel estão radiantes), mas não resisti. Eis, pois, três poemas de que gosto muito:


A música das estrelas

As estrelas também cantam
Cantam uma canção de embalar
sobre uma estrela que caiu
no fundo do mar


 Melhor lugar não há
para ouvir essa canção
do que deitado na relva
numa noite de Verão

Jorge Sousa Braga


A língua de nhem
Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

Cecília Meireles


Trem de Ferro

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)

Manuel Bandeira





terça-feira, 26 de novembro de 2013

"A montanha da água lilás"

Quando estudámos "Lago rico", um excerto de um livro de que gostei muitíssimo quando era da vossa idade (Rosinha minha canoa, de José Mauro de Vasconcelos), lembrei-me de que, há uns anos, tinha lido com duas turmas um livro do escritor angolano Pepetela (que ganhou o Prémio Camões em 1997): A montanha da água lilás. Na altura, rimo-nos imenso com as aventuras e desventuras dos Lupis.

Quando os estranhos seres cor de laranja precisaram de expulsar os rinocerontes que tinham invadido a montanha onde viviam os Lupis, estes perguntaram-se:
 
"Mas como, se eram tão pequenos e fracos? Decidiram exagerar na gritaria. Assim mesmo. O lupi-lupi-lupi invadiu a montanha. Os rinocerontes, que são quase cegos mas nada surdos, andavam muito nervosos com a lupilagem estonteante. Desesperados, bem corriam atrás dos lupis para os esmagar, mas estes eram rápidos e ágeis. Subiam logo às árvores, escapando sempre. Os rinocerontes ficavam cá em baixo a escavar a terra, a dar marradas nas árvores, furiosos. E o coro lúpico prosseguiu lá em cima. Até que, com os nervos arrasados, cacimbados mesmo, os rinocerontes retiraram e nunca mais voltaram à montanha.
A montanha era de novo só dos lupis.»
 
Mas isto foi sol de pouca dura... querem saber o resto? Leiam este delicioso livro e depois digam-me o que acharam. Lupi-lupi-lupi.

(Imagem retirada de http://www.dquixote.pt/fotos/produtos/500_9789722032483_montanha_da_agua_lilas.jpg)